11/01/2009

À Igreja É Proibido Proibir

Estava passeando pelos canais da TV esta semana, quando me chamou a atenção a conversa que um pastor evangélico travava com dançarinas de funk no programa Super Pop. O que ele dizia, em linhas gerais, era que os bailes funks deveriam ser proibidos já que estavam influenciando negativamente a juventude. Disse que as adolescentes engravidavam precocemente por causa deles.

Primeiro, sorri muito ao pensar na grandiosa contribuição que a Luciana Gimenez está prestando a cultura brasileira, ao mostrar todas as noites debates de tão alto nível envolvendo sempre interlocutores de refinada inteligência e gabarito, contribuindo assim para a cidadania no nosso país como nem os grandes intelectuais Jô Soares e Regina Volpato conseguem.

O argumento do pastor é bastante tolo, ineficaz para explicar as massivas gestações indesejadas, problema enfrentado, segundo ele, por tantas adolescentes. Este problema se dá por aspectos sócio-culturais. Famílias desestruturadas, ambientes de pobreza extrema, pouca ou nenhuma educação.Claro que isto não isenta os indivíduos de suas responsabilidades (há muitos que mesmo em ambientes adversos desenvolvem vidas bem sucedidas). Mas o argumento do pastor, além de simplificar tolamente o contexto destas pessoas, questiona também o livre arbítrio destes indivíduos, já que diz que são diretamente influenciados pelos bailes.

Evidentemente, há um apelo erótico exagerado na maior parte das músicas destes bailes funks. Mas será que o pastor só tem olhos para as dançarinas e as músicas dos bailes? Este excessivo apelo à sexualidade permeia praticamente toda a indústria cultural de massa. Novelas, programas de auditório, filmes, músicas, publicidade, possuem, muitas vezes, o erotismo como parte essencial do seu funcionamento e eficácia. E os próprios bailes funks só atingiram a visibilidade de que desfrutam graças à televisão, que costumeiramente difunde o entretenimento pautado pelo que de mais rasteiro existe no universo da cultura popular.

Então, o que nos proporá o nobre pastor? Que fechemos os cinemas, desliguemos as televisões, proibamos a música e as manifestações públicas de lazer, para voltarmos ao nosso estado primordial de pureza, quando éramos bons servos da igreja e jamais pensávamos em sexo (ou qualquer outra coisa impura) mas apenas entoávamos nossas orações com a alma embevecida?

Um estudo atento da época vitoriana mostra a hipocrisia deste puritanismo disparatado. Enquanto a moralidade pregada era a mais rígida possível, ascética, negadora da carne e enaltecedora do mundo espiritual, os becos e as ruas de Londres, ao cair da noite, revelavam um quadro bem diferente, onde os mesmos respeitáveis senhores que tão bravamente defendiam os bons costumes, se esbaldavam na esbórnia e perversão. Muitos destes atuais defensores da pureza moral vivem hipocrisia semelhante. A imprensa já mostrou isto diversas vezes.

Quando acompanhamos de perto a história humana, salta aos olhos os danos que o controle das sociedades pelas igrejas ocasionou ao progresso humano. Não já é hora de mandarmos calar estes indivíduos que apenas baseados em suas crenças fantasiosas em um ser imaginário, querem nos ditar como devemos pensar e agir?

Caro pastor, a maravilhosa e musical bunda de uma bela dançarina me parece ter mais direito a sua sólida existência no mundo visível do que a sua igreja, na qual você é o porta-voz dos seus amiguinhos invisíveis e não nos traz nada de palpável exceto a tábua das vossas leis.

Todos nós temos o direito de escolhermos nossas crenças. Mas um grupo de indivíduos movidos apenas pelo seu credo não pode querer controlar o comportamento de outro grupo, cujos preceitos são diversos do seu. Este fundamentalismo deve ser severamente combatido. Sempre duvide daqueles que querem, mesmo sutilmente,em um inexpressivo programa de televisão, cercear a sua liberdade. Assim, aos poucos, começam as tiranias.

9 comentários:

Davi disse...
Esta postagem foi removida pelo autor.
Davi disse...

O interessante é que você está a cercear a “liberdade” de tais indivíduos, desdizendo-se, assim, ao apontar o comportamento do pastor como fundamentalista. Palavras suas: “não já é hora de mandarmos calar estes indivíduos que apenas baseados em suas crenças fantasiosas em um ser imaginário, querem nos ditar como devemos pensar e agir?”. Caro amigo, a liberdade é tão-somente uma invenção conceitual.
Mais: os pastores querem e continuam a manter suas ovelhinhas bem ‘tapadas’. Estive a notar, há poucos dias, o vestuário típico duns freqüentadores duma igreja próxima à minha casa. As pupilas usam saias estilo amassadas, de tamanho longo, até a canela, geralmente uma camisa preta; os pupilos, sem exceção, uma camisa branca ou azul com gravata preta ou vermelha e uma calça preta, isso sempre.
O resto já sabemos, as igrejas estão acabando com os botecos, arre!

Daniel disse...

Não estou cerceando a liberdade de crença de ninguém, mas apenas apontando que uma pessoa não deve ditar a outra como se comportar baseada meramente no seu credo. Daí a ironia: é "proibido proibir" .

silvia disse...

..."A busca pela verdade suprema,ou o acto de tornar algo como tal por verdade,e o que causa a intolerancia e a total falta de razao..."

Umberto Eco

Raquel disse...

Acho que a Igreja é uma das coisas mais bobas já inventadas.
Tenho fé, sim. Acredito que há uma força maior que talvez reja a nos todos (ou talvez isso se deva simplesmente ao fato do ser humano ter que ter algo em que acreditar). Mas fé e religião, na minha opinião, são coisas totalmente diferentes.

Acho ridículo que a igreja tente proibir bailes funks. O que eles deveriam estar fazendo é um trabalho de coscientização, de propagação da fé, e não algo simplesmente comercial, para ganhar dinheiro, nem tentar impôr seus credos em pessoas que não sabem em que acreditar.

Daniel disse...

É aquela velha história Raquel,que os religiosos de uma forma geral querem nos contar: Deus criou o univero inteiro mas precisa do seu dinheiro.

Há um documentário fantástico que vale a pena ser visto: Zeitgeist. Vou escrever sobre ele depois.

Carolina P. disse...

Eu sei que você já postou de novo e tal, mas como foi realmente desgastante ouvir ao menos um minuto daquele vídeo (Mallu Magalhães) resolvi passar para este post que me pareceu mais agradável de ser lido.
Agradável para mim, que não acredito neste Deus tão respeitado pela Igreja católica e sim no Deus de cada um. No Deus que todos nós temos dentro de nós.
Este Deus católico é muito seletivo e ambicioso. O que - engraçado dizer mas - é pecado devido o mesmo. E para completar toda esta contradição, todos sabem dos misteriosos casos de padres abusando de carneirinhos de deus (leia-se, aquelas crianças que fazem trabalho voluntário na igreja mas eu não estou lembrando o nome, enfim, deixaremos de lado esta minha falta de memória e voltaremos ao ponto). Gostei muito do seu post, é :)

Daniel disse...

O deus judaico-cristão é uma fraude,como o estudo atento da história permite concluir. Todo o universo destas religiões é baseado na mitologia de religiões mais antidas, como a egípcia, por exemplo. A figura de Hórus guarda incríveis semelhanças com Jesus Cristo.O detalhe é que Hórus já era conhecido 3.000 a.c
E os danos que a igreja causa vão muito além das práticas pedófilas de alguns dos seus adeptos. A igreja atravancou a evolucão humana durante 2 mil anos e ainda desola o mundo atual com as suas práticas funestas. Quem pensa que a idade média ficou para traz, precisa repensar os seus conceitos.

O exemplo do pastor que quer proibir os bailes funks é de pouca importância quando pensamos,por exemplo, no papa e a sua proibição do uso de camisinhas.

Obrigado pelo elogio!:D

Anônimo disse...

procurem na net um documentario chamado "zeitgeist" fala sobre religião entre outros vcs vam gostar.

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